Calos da Fala
   Da minha imobilidade...

 

É a terceira tentativa de escrever-te esta.

 

Cada parágrafo aparece depois de tempo suspenso pela dúvida, pelo marasmo, pelo silêncio mesmo.

 

 Sinto silêncio de ti.

 

Meu olhar vagueia sem piscar.

A pena fica entre os meus dedos sem saber a que se destina. A tinta que não vira letra.

 

Procuro-te. Esbarro numa mágoa disfarçada. Disfarçada porque não cabe dentro da beleza que foi a de nunca existirmos.

 

(Quando me darás a rosa pequenina?)

 

Sequer atrevo-me a confessar-te, pois que se chegas tudo se dissiparia. É que a mágoa disfarçada é somente essa tua falta que me tira a fonte dos meus sorrisos.

 

Estou a velar tua ausência. Como quem espera um milagre. Espero que surjas e sacuda toda essa infame poeira de espera que aumenta e me ofusca.

 

Sinto-me quase uma estátua. Está/tua. É que me movias.

 

A fonte dos meus sorrisos é a mesma de toda minha beleza.

 

Sinto silêncio de ti.

 

 

Firmina Daza

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 11h20
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   Do que não se sabe...

 

Não me importa não saber os pontos cardeais, nem quando acabou-se a Segunda Guerra, nem quando começou a primeira.

Pouco me interessa os nomes dos ministros e os estados e suas capitais.

Ignoro nomes e datas e marcos e espaços e estações.

Mais que entrar num museu, fascina-me gotas de chuvas fazendo colar com a teia de uma aranha, suspenso entre folhas e galhos. Um besouro de um verde só dele mesmo, que brilhava. Um vaga-lume sinalizando uma noite.

Quero saber outras coisas. Coisas minhas. Quero saber o que pode este em que vivo; o meu corpo.

Meu pensamento quanto mais estico, mais cresce, viajo sem sair do lugar, conheço tudo que quero, nele sou o que quero. Me faz quase livre. Livre de querer companhia. De precisar. Meu pensamento me faz quase livre.

Mas são muitos sentidos para despertar, penetrar, fazer brotar.

O que pode o corpo?

Pode tanto, tanto e ainda não sei. Porém, me consola saber que sempre soube que ele podia muito, me consola nunca ter acreditado no pouco. E nunca ficar satisfeita.

Em alguns segundos sou capaz de jurar que tive em mim toda a potência da vida.

E vou me experimentando. Neste caso não importa ser livre. A liberdade é outra. É a de se deixar ser de outro. Num pertencimento duplo que é de cada um e que não existe se não é duplo. Mistério da composição. O pensamento vai junto. Para um além que vibra e que opera uma outra linguagem. Não é a palavra. Se a palavra pudesse adentrar neste recinto de êxtase, seríamos todos livres. A palavra seria o Deus.

No entanto, somos deuses ali. E se em segundos fosse o nosso amor? E se somente nestes segundos pudesse eu dizer-te que amo-te? Entende que já era mais que tudo?

Não. É pouco. É o que pensas. Mas estava então eu inteira e deusa tua. Nem sempre posso mostrar os poderes que descubro a cada instante. E neste nem sempre estou disfarçada de uma qualquer entre todos. Tens o meu melhor. Acontece que tenho muitos melhores. Deixa somente eu ser. Nada há a temer.

 

 

Afrodite

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 11h07
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   Do estranhamento

 

Primeiro a idéia-sensação de que tudo se sabia.

Falo enquanto era ainda seu pensamento.

Enquanto ainda era meu pensamento você fala.

Delírio a dois, talvez.

Telepatia, talvez.

Sincronia, talvez.

E era meu brinquedo a fazer vontades minhas-inventadas para você que pensava ser um brinquedo para mim.

E eu brinquedo para você, a criar vontades que você não tinha e fingia ter para que eu pensasse que era mesmo brinquedo seu.

Até jurava acreditar que acreditava na idéia de almas quase una - iguais.

Isso não. Quanta diferença. Mas não queria ver. Queria mesmo fingir. Nem sabia que fingia. Mas sentia que você fingia.

Depois me ressenti, como se enganada estivesse. E queria mesmo estar enganada. Queria estar enganada do meu engano. Tinha esperanças no meu engano.

A verdade é que tudo estava muito lá. Desde sempre.

E o estranhamento nada mais era que apenas aceitar um reconhecimento do que já era.

É que brincar cansa.

E se sinto saudades foi disso que era, sem as análises da verdade. Se sinto saudades é do que foi engano. Mas lá, não era engano. E lá foi amor. E este sobrevive. No plano dos arquivos vivos das lembranças. Elas não devem ser rebuscadas. É um erro tremendo. Devem bastar-se lá onde estão. Sem atualizações. Bastam-se. Sobrevivem no atemporal. Para elas não há mais tempo. E fazem parte de uma minha alegria.

 Lembro bem quando deixou de ser. Foi um teste de minha parte. Arrisquei tudo. E só dois caminhos poderiam ser. Maquiavélico de minha parte? Não. Sou só um ser tolo que busca algo menos etéreo que um faz-de-conta. A Dama da Triste Figura. A que segue a ética do Dom Quixote. Você teria piedade... Mas não é isto que espero, o tanto de minha miséria é o tanto da minha força.

Maquiavélico de sua parte? É provável. Mas compreendo seu egoísmo. Entendo o quadrado do seu universo. Sufocante.

E fiquei feito uma cega solta num campo sem referências, sem apoios, tateando o vácuo. Até que percebi que aquilo não era cegueira, era somente uma faixa-negra, a mesma que usamos para brincar. Não. Não havia estranhamento algum. Você era exatamente o que eu tinha visto muito tempo antes. O estranhamento era o de ver esta sua imagem primeira mais forte que as inventadas. Ela sempre foi o que era. Uma imagem que sempre estranhei. O resto foi faz-de-conta. A diferença é que foi compartilhado. Mas eu brincava só. E o mais terrível: eu acredito em faz-de-conta. Não a crença alienada. É a crença esperançosa que possa haver mais cores no real e que estes mundos não são separados. Mas as pessoas não sabem brincar. Não sabem da seriedade leve do brincar.

Sabem apenas caminhos fixos. Que acabem na cama de preferência. Não para sonhar. Mas para tornar sórdido qualquer encanto. Isso é realmente feio.

E o que a vida senão uma série incessante de estranhamentos?

Dor não é mágoa. Existe dor. E é somente minha.

Quanto a nós: O resto é o início, que também é o fim: estranhamento.

 

 

 

 Dama da Triste Figura

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 10h37
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   Sobre os usos dos mapas...

 

Tatiana Parcero.Cartografía Interior (México)

 

Já não há endereço certo.

Somente os que sempre aprendi que são certos.

Foram ruas de oásis. Miragens. Cada espaço, uma arquitetura belo-macabra.

Bruxuleios de falsas magias. Aventura sim.

Os que são certos lá; a cada volta de delírio.

Os que são certos lá; a cada volta de alucinação.

E mesmo o deserto continua o mesmo deserto.

E agora me pergunta se preciso de mapa?

Quanta tolice. Agora que já sei ser maior que o meu delírio?...

Agora que sei que “o certo é saber que o certo é certo”?

Tenho mesmo que gargalhar, mesmo que não ache graça nisso.

Nunca entendi mapas. Sempre fui errante em meus descaminhos-rotas.

E nunca me durou mais que alguns segundos a ilusão de algo conhecer.

Somente em ilusão. Somente em segundos.

E todas as coisas que vi, estão comigo. Em cores. Em essências todas, já que as jamais possuí.

Nunca aprendi isso de existir. É que algo insiste em mim. E me sobrevive.

Pareço desconhecer o que sempre quis: era isto mesmo!

Era isto: sentir a dor sem que ela doa.

Senti-la como uma sensação a mais. Sem espanto e sem ressacas. Sem lágrimas.

Elemento comum disso que não sei e estou. Não. As cicatrizes são outras. São no meu olhar.

Isso tudo me dá forças, me vicia.

Sempre será um outro olhar.

Foi na sexta, nem era a da paixão. Era nele, porém, somente poderia vê-lo no espelho.O olho esquerdo: um derrame. Grave, disse o médico(logo percebi que sobre gravidade nada sabia).

O olho que sempre via o sangue agora via o sangue no olho.

Aquele olho era meu. O sangue também. O que fez o sangue mostrar-se também era meu. Conhecido. Sabido.

Sempre será um outro olhar.

Só o endereço certo é certo.

Mais honesto ordenar que dar conselhos: vá ao inferno com seus mapas inúteis.

(se é que algum dia você saiu de lá...)

Tenho olhos.

 

Vitória Maria Barbosa

  

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 16h19
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