Calos da Fala
   Fui à queda, fui ao chão

 

 

Era uma segunda-feira.

Já falei: não gosto deste dia.

Acordei sem querer acordar.

Quis ser a espuma do colchão.

Um banho frio foi a saída.

Ao som do Mar de Sophia.

Vesti-me de branco.

Esqueci que não quis acordar.

Acordei.

Perfume de flor de laranjeira. Adoro.

Um cigarro e um café sem açúcar.

A escada antes do quintal.

Três batentes.

No segundo, em frações de segundos, caí.

Um acontecimento uma queda.

Polegar direito e a coluna foram os pontos de apoio.

Machucados ficaram.

Mas o que fica é aquela pequena fração. Aquele lapso do equilíbrio.

O hiato entre meu corpo e o chão.

Um acontecimento.

Aquela rapidez me leva para um acordar. Um mistério uma queda.

Um acidente. Um susto. Uma surpresa.

É que algo é maior que as frações, maior que os machucados.

Sim, aprendi a importância de um polegar. E a de poder ainda levantar.

Uma queda...

Aprendi que a queda é um mistério. E sei, não sei falar disso.

Não me acudiram três cavalheiros.

Eu me dei minha mão.

 

 

Vitória Maria Barbosa

 

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 09h45
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   Do que gosto

 

 

Frida

 

Eu gosto de sentar na sombra. Com vento. Com barulho de dança de folhas: este é o instante em que sou. Sou o que quero. E o que quero é isto. Sinto-me da vida. Numa só força. Sinto uma paz sonolenta. Um fundir-se com o inexato. E, no entanto, tudo parece inteiro: exato.

 

Eu gosto de deitar na cama. No meu quarto. Sem luz. Muitos travesseiros e lençóis. E minha imobilidade. O escuro cortado pela respiração lenta. Não importa se tenho abertos os olhos ou não. Minha interioridade está escura, acompanha minha exterioridade. Aqui já é a sensação de um amparo para o desamparo absoluto. Amparada pelos inanimados. Aquecida com o meu próprio calor. Desamparada pelo infinito. Ainda assim, penso em sumir-me da vida lá fora. Sinto vontade de assim permanecer indefinidamente. Inércia.

 

Gosto de estar na estrada. De carro ou ônibus. Importante é a janela. Importante é o vento. Importante é a velocidade. A paisagem que corre. O céu sempre céu. Tudo chega rápido e os pensamentos se sucedem sem que nenhum retenha nenhum. Pacíficos. Há uma explosão de felicidade.  Se tiver alguém: por favor, não fale comigo. Se tiver música... É tudo!!!

 Ir, ir, ir, ir...

 

Gosto de fumar sem ser vista. É um retiro. É um abandono de mim em mim. Nostalgias lentas do ido e do que jamais será. E ainda assim eu o conheço.

 

Gosto enfim, dos instantes em que desapareço. Visível somente para mim, sem maiores atenções. Intensidades íntimas.

 

Vitória Maria Barbosa

 

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 09h03
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   Enquanto existir depois...

 Explosion - Salvador Dali

 

 

Enquanto existir depois...

 

Depois falo depois explico

Depois detalho

Depois te digo

 

Enquanto existir depois

Depois te escrevo

Depois reparo

Depois viajo

Depois revejo

 

Depois saímos

Depois rimos

Depois cansamos

Depois abraço

 

Depois dançamos

Depois quero

Depois choro

Depois cometo

 

Depois emblema

Depois teorema

Depois solução

 

(CONTINUA)



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 07h48
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   Enquanto existir depois...

 

 

 

Depois a farra

Depois a lama

Depois a sacola

Depois o embrulho

Depois o entulho

 

Depois respiro

Depois expiro

Depois segredo

Depois o medo

 

Depois a fada

Depois o gênio

Depois três desejos

Depois sorvete

Depois esfrio

 

Depois o código

Depois a senha

Depois identidade

Depois revolução

 

 

Depois minha letra

Depois paciência

Depois desavença

Depois compreensão

 

Depois emudeço

Depois fogo

Depois cinza

Depois vento

 

Depois carnaval

Depois São João

Depois nenhum grito

 

(CONTINUA)



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 07h47
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   Enquanto existir depois...

 

 

 

Depois enceno...

 

Depois se fôda

Depois se exploda

Depois vá à merda

Depois o caralho

 

Agora: descompostura

Agora: a verdade

Chega de saudade

: FUI.

 

 Vitória Maria Barbosa

 

 

 

 



Escrito por Vitória Maria Barbosa às 07h45
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