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Almas anãs (Minha primeira fábula)

Tenho tentado ao longo da vida me situar no mundo. Sobretudo no “mundo dos humanos”. Desde miúda imagino a fábrica de almas. Lá, eles, os fabricantes, fazem algazarras loucas antes de enviar o pobre mortal para a Terra. Colocam braços maiores em corpos menores, fazem pessoas com face de bichos, enfim, testam todas as possibilidades. Orelhas enormes, narizes de águia, colocam sinais feito bolotas nojentas com a massa que sobra. Com os pelos fazem misérias, exageram nas sobrancelhas, as vezes no corpo inteiro. Com os cabelos então... Leitor, você é capaz de imaginar a farra que é esta fábrica? O setor de criação é o mais animado, discutem a filosofia das formas criadas, defendem-nas como se defende um ovo cozido numa Bienal em São Paulo. Claro, existe o oposto. Fazem criaturas lindas também. Quando estão inspirados e de bom humor (saiba caro leitor que o Holocausto foi uma tentativa de descentralizar o poder da fábrica do céu para a terra). Trabalham também com as almas. Por vezes negociam que o pobre espectro de vida escolha se quer ser lindo na aparência externa ou interna. Dependendo do caso não dão direito de escolha. O fato é que um belo dia um deles criou a forma anã. Fascinado ficou com sua criação. Quis então unificar sua criação, estava cansado de tantas formas aberrantes, de tanta imaginação gasta com os miseráveis. Mas o projeto não passou na mesa diretora. Muita sede de criar ainda existia ali. Principalmente nos discípulos dos primeiros artesãos. O caso assim ficou resolvido: ao invés da forma anã, passou, por consenso, a alma anã, ela não cresce, não evoluí. Pode se tornar bizarra. Não era simplesmente uma escolha. É que nas elaboradas experiências no laboratório experimental perceberam que os míseros seres humanos eram tipos fracos, tolos, egoístas. Poucos conseguiam escapar. Mesmo com os melhoramentos genéticos (este não era o termo por lá utilizado) faltava substância fértil neles. Nenhuma outra forma animal era tão imperfeita, lamentavam. E assim, é o que temos por todo lado feito praga que se alastra; as almas anãs.São virulentas também, não se contentam com sua própria bizarrice. Querem contaminar outras, e conseguem...é triste!
Mais tarde diria uma Pessoa “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
É tanto que basta mudar o “l” do local que a alma vira lama.
Vitória Maria Barbosa
Escrito por Vitória Maria Barbosa às 07h46
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Sinto medo.
Sei que não o sinto só.
Sei também que a causa é uma, mas os medos são todos distintos.
E o meu é tão inconfessável. Um perdão incompreensível que dei sem dar.
Hoje precisei abraçá-lo. Precisei sentir o que antes sentia e feito cega que acaba de enxergar, percebo que é uma sensação que tenho em vão buscado: aquele abraço que apaga dores num só acalanto. Lá parecem existir fadas e o encanto de mágicas que já nem cabem mais neste mundo cruel. lá não há medo. Nem dor.
Temos medo de perdê-lo.
Vi também nos seus miudos e tristes feito olhos de elefante que havia lá este temor, ou já um olhar saudoso de despedida.
Senti o iceberg que criei se diluindo. Criei para nós.
Geleira que por mais que me queime teimo em negar.
Fui chorar escondida.
Escrevo aqui ainda de covardia embora num salto para tentar burlá-la. Porque seus olhos que evito não irão ler nada disso. Nunca nem lhe mostro o que escrevo, mesmo sabendo que seria orgulho seu, amante das palavras.
E sei o tanto seu que há em mim...
E sei que posso herdar essa covardia como meu pior castigo se você se for agora.
Talvez volte aqui para escrever mais. Expiar esse calo seco.
Agora vou novamente chorar escondida.
Menos de mim mesma.
Vitória Maria Barbosa
Escrito por Vitória Maria Barbosa às 16h52
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O homem velho
O homem velho deixa a vida e morte para trás Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais O homem velho é o rei dos animais
A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol As linhas do destino nas mãos a mão apagou Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll As coisas migram e ele serve de farol
A carne, a arte arde, a tarde cai No abismo das esquinas A brisa leve traz o olor fulgaz Do sexo das meninas
Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon Belezas, dores e alegrias passam sem um som Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual Já tem coragem de saber que é imortal
Caetano Veloso
Escrito por Vitória Maria Barbosa às 16h40
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